Introdução: você não está sozinha
A dor menstrual que atrapalha o dia a dia, que te faz faltar ao trabalho ou à faculdade, que te deixa encolhida na cama. Isso não é “só uma cólica”. Muitas mulheres convivem com esse sofrimento durante anos antes de descobrir o que está por trás dele. A endometriose é uma dessas condições que demoram a ser diagnosticadas, mas que afetam a qualidade de vida de forma significativa.
Como médica especializada em saúde da mulher, a Gabriela Barreto preparou este artigo para te ajudar a entender o que é a endometriose, quais os sintomas mais comuns, como funciona o diagnóstico e, principalmente, quando você deve suspeitar dessa condição. Informação é o primeiro passo para cuidar melhor de você mesma.
O que é endometriose?
A endometriose é uma condição em que o tecido que reveste o interior do útero (o endométrio) passa a crescer fora da cavidade uterina. Esse tecido pode se implantar nos ovários, nas trompas, na bexiga, no intestino e em outras regiões da pelve.
Apesar de estar fora do lugar, esse tecido continua respondendo às variações hormonais do ciclo menstrual. Isso significa que, a cada ciclo, ele descama e provoca uma reação inflamatória local, causando dor e podendo formar aderências e cistos.
A endometriose acomete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, segundo dados da OMS, da FEBRASGO e da ACOG. É uma condição crônica, mas que tem tratamento.
Quais são os sintomas mais comuns
Os sintomas da endometriose variam de mulher para mulher. Algumas têm poucos sintomas mesmo com a doença em estágio avançado; outras sofrem com quadros mais leves. Os sinais mais frequentes incluem:
- Cólica menstrual intensa – dor que não melhora com analgésicos comuns e que pode começar antes da menstruação
- Dor durante a relação sexual – especialmente no fundo da vagina (dor profunda)
- Dor pélvica crônica – fora do período menstrual, podendo ser constante ou intermitente
- Dor ao evacuar ou urinar durante a menstruação
- Sangue nas fezes durante o período menstrual – quando a doença acomete o intestino
- Alterações intestinais – diarreia ou constipação durante a menstruação
- Dificuldade para engravidar – em alguns casos, o único sintoma
- Cansaço e fadiga – mesmo fora do período menstrual
Dor menstrual: quando é preocupante
Toda cólica merece atenção. Mas nem toda dor menstrual intensa significa endometriose. A diferença está na intensidade, na frequência e no impacto no dia a dia.
A cólica menstrual primária (comum) costuma melhorar com anti-inflamatórios e tende a ser mais intensa nos primeiros dias da menstruação. Já a dor relacionada à endometriose costuma:
- Começar antes do sangramento menstrual
- Melhorar pouco ou nada com analgésicos simples
- Piorar ao longo dos anos
- Atrapalhar atividades cotidianas de forma recorrente
Se você se reconhece nessa descrição, é importante procurar avaliação ginecológica.
Endometriose e fertilidade
A endometriose está associada à dificuldade para engravidar em um número significativo de casos. Isso ocorre porque os implantes endometriais podem causar aderências que distorcem a anatomia pélvica, prejudicam a função das trompas e afetam a qualidade dos óvulos.
Mas é fundamental deixar claro: ter endometriose não significa que você não pode engravidar. Muitas mulheres com a condição conseguem engravidar, inclusive espontaneamente. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado fazem diferença.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da endometriose começa com a consulta ginecológica. O médico vai ouvir sua história, entender o padrão de seus sintomas e realizar o exame físico.
Os exames que ajudam a investigar incluem:
- Ultrassom transvaginal com preparo intestinal – exame de imagem especializado que pode identificar endometriomas (cistos nos ovários) e lesões profundas
- Ressonância magnética de pelve – quando há suspeita de endometriose profunda ou quando o ultrassom não é conclusivo
- CA 125 – exame de sangue que pode estar elevado, mas não é específico (pode ser normal mesmo com endometriose)
A videolaparoscopia, apesar de ser considerada o padrão-ouro para confirmação diagnóstica, não é indicada como primeiro procedimento na maioria dos casos. Hoje, o diagnóstico clínico por imagem é cada vez mais aceito, e o tratamento pode ser iniciado mesmo sem cirurgia.
Tratamento: o que existe disponível
A endometriose é uma condição crônica, mas que tem tratamento. O objetivo é controlar os sintomas, melhorar a qualidade de vida e preservar a fertilidade quando desejada.
As opções incluem:
- Anti-inflamatórios e analgésicos – para controle da dor
- Anticoncepcionais orais contínuos – podem ser usados de forma contínua (sem pausa) para suprimir a menstruação e reduzir a atividade dos implantes
- DIU hormonal (levonorgestrel) – libera progesterona localmente e pode ajudar no controle da dor
- Análogos do GnRH – medicamentos que induzem uma menopausa temporária, usados em casos selecionados e por tempo limitado
- Cirurgia (videolaparoscopia) – para remoção das lesões, indicada quando o tratamento clínico não é suficiente ou quando há endometriomas grandes
A escolha do tratamento é individualizada e deve ser feita em conjunto com a equipe médica, considerando o quadro clínico, a gravidade dos sintomas e o desejo reprodutivo. Outras abordagens como atividade física regular, acompanhamento nutricional e suporte psicológico podem complementar o cuidado.
Lembrete da Gabriela
Dor menstrual que te impede de trabalhar, estudar ou viver normalmente não é algo que você precise aceitar. Se a cólica está te limitando, procure uma ginecologista. Você merece ter seu sofrimento levado a sério.
Quando suspeitar de endometriose
Fique atenta se você apresenta:
- Cólica menstrual que piora a cada ano
- Dor forte durante relação sexual (dor profunda)
- Dificuldade para engravidar sem causa aparente
- Dor ao evacuar ou sangue nas fezes durante a menstruação
- Cólica que não resolve com os mesmos analgésicos que funcionavam antes
- Histórico familiar de endometriose (mãe, irmã, tia)
Perguntas frequentes
Endometriose é câncer?
Não. A endometriose é uma condição benigna. Apesar do comportamento infiltrativo do tecido, ela não se transforma em câncer.
É preciso operar sempre?
Nem sempre. O tratamento clínico com medicação é a primeira escolha para muitas mulheres. A cirurgia é reservada para casos selecionados.
Quem tem endometriose não pode engravidar?
Pode. Muitas mulheres com endometriose conseguem engravidar, inclusive naturalmente. O acompanhamento especializado aumenta as chances.
Menstruar pouco ou não menstruar afeta a endometriose?
Não elimina a doença, mas pode controlar os sintomas. Tratamentos que suprimem a menstruação ajudam a reduzir a atividade da doença.
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Referências
- ACOG Practice Bulletin No. 114: Endometriosis. American College of Obstetricians and Gynecologists, 2010 (reaffirmed 2018).
- FEBRASGO – Diretriz de Endometriose. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, 2021.
- Zondervan KT, et al. Endometriosis. New England Journal of Medicine, 2020; 382:1244-56.
Aviso médico: Este artigo tem caráter informativo e educacional. Ele não substitui consulta médica, diagnóstico ou tratamento. Se você apresenta sintomas compatíveis com endometriose, procure uma ginecologista para avaliação individualizada.
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